Origens
e Evolução
De Norte a sul do país, nesta terra portuguesa, não há lugarejo
que não tenha o seu costume, a sua lenda, a sua tradição.
Desde Lanhoso a Esposende ou até terras de Santa Maria não
há classe ou grupo social que não tenha os seus folguedos e
culto, desde a mais distinta à mais
humilde e analfabeta.
O povo português em especial, os latinos e célticos
genericamente, tem a sua ancestralidade numa abundância de festas e
folguedos a Deuses naturais, verdadeiros ou falsos, antropomórficos
ou simplesmente humanos, para mitigar as agruras da vida, ou para dar largas
ao seu espírito ou ainda para expandir a sua alegria. São Festas
aos patronos: são romarias que, na sua origem, foram produto do religiosismo
sincero da alma simples de um povo e que, com o decorrer do tempo, foram
tomando um carácter profano, mais ou menos lúcido.
Conforme
o seu mister, até às superiores elites da inteligência,
todos têm
na sua comunidade, a sua festa tradicional.
A Academia Vimaranense não podia ser excepção, afinal
existe há centenas
de anos.
Vejamos em síntese a possível evolução
conhecida por que passaram os folguedos das Nicolinas ao longo das épocas.Em
1190, ao tempo em que Portugal ensaiava os primeiros passos de nação,
Paio Galvão foi renomeado mestre da Escola da Colegiada pelo primeiro
D. Prior conhecido, D. Pedro Amarelo, e os estudantes de Humanidades desta
vetusta Escola, erecta na igreja de Santa Maria da Oliveira, com a sua devoção à Virgem
desde o Séc.
IV, foram a origem e remota das Festas Nicolinas.
Esta tradição
que hoje faz parte do rico património vimaranense, soltava os rapazes
pelo Solstício de Inverno em folguedos e corridas pelos campos, comemorando
S. Nicolau cujo culto tinha sido difundido na Europa.Do séc. III ao
séc. XV a tradição foi-se manifestando em comemorações
mais ou menos similares às
do resto do Mundo.
Os jovens estudantes recolhiam lenha, castanhas, maçãs.
Faziam a sua posse e organizavam um grande MAGUSTO no rossio do Toural, em
pleno terreiro, para onde era convidada toda a população. Eram
poucos os estudantes e, portanto, o convívio era próximo,
envolvente. A anunciar a Festa Nicolina como ainda hoje se faz em comunidades
rurais, era alteado um arco engalanado. Os jovens mais modestos traziam a árvore
- O Pinheiro - e espetavam-no na praceta, deixando-lhe a ramagem no cocuruto.
O mastro anunciava assim o começo
da Festa.
Depois do Magusto eram distribuídas as maçãs
pelos populares, homens e mulheres, como dote, privilégio, ou prova
de amizade. Sobretudo às mulheres jovens que alimentavam as paixões
nas noites de serenata...
Mas a tradição escolástica
vimaranense não se confina à Colegiada. Tivemos cá a
Universidade na Costa: “pois sendo El-Rei D. João
III ainda príncipe, houve um filho natural com uma moça da
Câmara da Rainha D. Leonor ... a quem pôs o nome de D. Duarte,
e o mandou criar com todo o segredo no Mosteiro da Costa, junto a Guimarães”.
E logo o irmão do mesmo Rei, D. Luís “... entregara ao Colégio
da Costa seu filho D. António, que proviera de seus amores com uma
formosa judia, a Pelicana” . Citando o Sábio polígrafo José Leite
de Vasconcelos diríamos que “se outras indicações históricos
não houvesse, bastara este singelo para nos fazer restituir à cidade
de Guimarães a glória da posse de uma Universidade no século
XVI “.
Depois chegamos à época dos descobrimentos, ao Séc.
XV e a cidade sofre uma transformação bastante acentuada. As
ruas Novas começam a aparecer e os interesses económicos medievais
também modificaram os seus hábitos e lugares.A Festa foi acompanhando
o crescimento do burgo e criando números que se foram perpetuando
na tradição.A orientação das ruas, até aí Norte
- Sul, ou seja do castelo à igreja,
passam a ser Leste/Oeste.
O principal interesse era na época, chegar rapidamente ao mar.
Muitos
jovens se perderam em aventuras e se quedaram pouco pela cidade Daqui em
diante toma-se mais importante pôr os produtos da terra rapidamente
junto ao mar para aprestar barcos e caravelas ali, para as bandas de Vila
do Conde. Muitos dos nossos moços foram atraídos pela nova
aventura e também por ela foram, influenciados. Os folguedos também
vão
sofrer algumas transformações. A Academia cria a sua Confraria
cujo patrono é S. Nicolau e com o
compromisso de 1513 introduz os hábitos novos das Novenas e Matinas à padroeira
Nossa Senhora da Conceição, então
ali para as bandas da ribeira da Vila, no terreiro da feira.
No Inventário
Geral da Colegiada relativo a 1564, pode ler-se: A Capela de S. Nicolau fizeram-na
os estudantes desta vila e outros devotos de dinheiro que ganharam em comédias
e danças que por devoção do Santo e aumento da capela
aceitavam o dinheiro que lhe davam. Tal demonstra um culto anterior a 1654
em que a Capela já estava concluída e é em
6 de Dezembro de 1691 que se transforma por compromisso, a Confraria de S.
Nicolau em irmandade.
No tempo dos Filipes a juventude luta em defesa da liberdade
para Portugal. Em Guimarães há várias manifestações
contra o poder instituído, sobretudo cavalgadas de embuçados
durante a noite com gritas à liberdade e que são proibidas.Chegamos
ao Séc. XVII e as ameaças à jovem independência,
bem como as invasões francesas, vêm contribuir para aumentar
o imaginário patriótico e a hipérbole fantasista postos
nos textos, comédias, danças e representações
promovidas pelos estudantes. Nos pátios da cidade, nos salões
das casas senhoriais ou tão somente nas ruas para o povo anónimo,
Guimarães
rejubila de alegria pela Festa da sua juventude. Nasce o Pregão à boa
maneira das academias francesas ou do simples decreto real que era anunciado
e que pelos Bandos Escolares eram apresentados e declamados, acompanhados
de cavalgadas e mascaradas que incomodavam o poder instituído.
O pregão era o gáudio da populaça.
provocando truculências e desafios às autoridades.O séc.
XVIII encorpou a tradição dos Festejos, consolidando a Urbanidade.No
século XIX a Escola Industrial e Comercial de Guimarães, o
Seminário da Oliveira e o Liceu foram o alfobre animador das Nicolinas.
Mas aqui assistimos a uma diferenciação
social, latente nos dois estabelecimentos de ensino.
Os aprendizes moços
dos ofícios, artes e mestres e os jovens estudantes originários
de uma classe mais favorecida economicamente e que estudavam no Liceu. Nesta época
nasceu o banho forçado no antigo chafariz do Toural e que hoje se
encontra no Carmo. Peça única do nosso património construído.
Este período das Nicolinas é o mais profano da sua existência,
pois do seu carácter religioso nada reza a história, os Festejos
são os tempos do liberalismo. Deviam antes chamar-se festas às
Senhoras de Guimarães. Elas são as verdadeiras musas no decurso
da história e da sua existência fundamental, como se testemunham
nas leituras dos pregões da época. A natureza cumpre a sua
função.
Existe.
Ao longo da data de 1880 só se encontram nos bandos das Nicolinas,
apoteoses ao amor, hinos e madrigais às senhoras da cidade e galanteios às
formosas e azougadas meninas do burgo. É a época do Romantismo
literário que foi cultivado pelos moços nicolinos. O tema forçado é o
amor. Somos, assim, levados a concluir que Nicolau era um símbolo
para encobrir intenções reservadas e paixões naturais.Em
1853 e 1861 por morte respectivamente de D. Maria II e do Senhor D. Pedro
V não
se realizaram as Nicolinas.
A Academia estava de luto.De 1865 a 84 celebram-se
as festas com muito brilho por empenhamento de uma plêiade de jovens
das melhores famílias do burgo.De 1884 a 95 não há festas
Nicolinas. Desapareceram e S. Nicolau foi esquecido. Qual a razão
deste desinteresse? Os estudos de Latim e Lógica do Instituto de N.
S. da Oliveira até 1884
serviam de preparatórios, tanto para as carreiras civis como para
a vida eclesiástica. Por isso Guimarães era um centro académico
importante e, por isso, Nicolau podia ser festejado.
Mas a organização
dos Liceus com estabelecimentos forçados para preparatórios
das profissões liberais rouba a Guimarães a maior parte do
seu contingente académico.Somente em 1896 o pedido de criação
do Liceu Nacional é atendido fazendo voltar a Guimarães a mocidade
estudiosa de Entre Douro e Minho, das terras de Basto ou do Sousa e de Trás-os-Montes.Neste
período, um realce particular para os obreiros das Nicolinas, fazedores
de novas e actuais festas, bem zabumbadas e afinadas preceito por Jerónimo
Sampaio e do Anjo da pena, fazedor de soberbos poemas e pregões magistrais,
o Dr. Bráulio Caldas.Deste período existem, em cada ano produzidos,
brilhantes Pregões e Bandos escolásticos dignos de mestres
e que são património da nossa Academia e onde estão
retractadas magistralmente as personagens e figuras de relevo da cidade com
sátiras e criticas magistrais.Ao voltar do século despede-se
uma geração e acontecem as novas mudanças
na cidade.
A República chega e com ela o progresso começa a
chegar a esta cidade pela vontade do Presidente Mariano Felgueiras e seus
pares. O comboio para Fafe, a polícia, as zonas novas da cidade, o
internato Municipal sendo seu primeiro director o Dr. Eduardo d'Almeida.
Com esta geração
o destaque para Arnaldo Pereira, Nicolino de referência, mas também
para João de Meira, Padre Gaspar Roriz, Delfim Guimarães, Luís
Filipe Coelho, Jerónimo d'Almeida, Leão Martins e o Mestre
José de Pina.A República e o 28 de Maio também trouxeram
marcas e mutações aos Festejos e as Reformas do ensino emanentes
reduzem ao ostracismo as Nicolinas.O Estado Novo não desejava movimentos
estudantis onde a liberdade e a democracia faziam parte dos seus hábitos
de vivência.
A Festa fica reduzida aos alunos do Liceu Nacional de
Guimarães e a alguns outros, poucos, da Escola Industrial que se atreviam
a participar.Na década de 60 por força do restauro da Igreja
da Oliveira é desmontada pedra a pedra a capela de S. Nicolau que
fica amontoada até aos nossos dias na Colegiada. Um erro imperdoável
dos Monumentos Nacionais. Também a Irmandade quase desaparece, envelhecida
e temerosa. Em 1961 nasce a AAELG e o realce será para o estimado
e saudoso António Faria Martins acompanhado de António Dias
P. Castro, Aristião Campos, Hélder Rocha, Luís Cardoso,
João Augusto Passos, Amadeu Guimarães, o Sargento Júlio
Mendes, António Monteiro, Alexandre Rodrigues, fazedores já anteriormente
em 1954, de umas saudosas e atrevidas Danças.Com o 25 de Abril ganha
polémicas
e novos arremedos de vontade de renascer.
Um grupo de nicolinos desde 1969
alimenta o Espírito Nicolino das novas gerações que
participam na Festa, sempre que é preciso mantê-la viva. Neste
grupo que reúne há 30 anos na última Sexta-feira de
cada mês encontram-se homens de grande envergadura moral e pública
e cuja dádiva às Nicolinas merecem referência: Alexandre
Rodrigues, Meireles Graça, Martins Faria, José Maria Magalhães,
Agostinho Gonçalves, Joaquim Mota Prego, José Gilberto, José Maria
Jordão, Pinto d'Almeida, e os já finados: o velho Passos armador,
o alegre Rui Faria, e o nosso saudoso “Ku-mandante” de Fafe o Orlando Alves,
entre outros de boa memória. Era o professor Óscar Machado
que como Maestro orientava a “música” toda para as Festas e o Sino
a sanfona do órgão carregado até ao último
piso da Torre dos Almadas.
Deste grupo de aproximadamente 30 Nicolinos saíram,
ao longo das últimas três décadas, as Festas Nicolinas
actuais, melhor ou pior expressas nas comissões anuais de jovens que
as tomaram realidade.Nas décadas de 70/80 uma nova geração
começa a apropriar-se da Festa como herança: Cândido
Costa, Alcino Machado, Américo Ferreira, Lino Moreira, Augusto Costa,
Capela Miguel, Abel Monteiro, João Mesquita, José Ribeiro,
Vicente Salgado, o Ricardo Gonçalves, o Rolando Sampaio, Francisco
Tadeu, o António Romano, o Carlos Duarte, o Carlos Ribeiro, que se
dedicam ao rejuvenescimento das Danças
de S. Nicolau e da Academia.
Os Trovadores do Cano cediam o espaço
de ensaio e os tocadores para o Hino. Rejuvenesceram-se grupos e tertúlias
fazedores das Festa Nicotina; renasceram por fim, trazendo para o seu lugar
primitivo, o centro histórico da cidade - a Razão de Ser e
a Alma da Festa: As Maçãzinhas.Já na década de
90 outra geração aparece empenhados na valorização
das Nicolinas: Luís Correia, Pedro Lima Fernandes, Hélder Oliveira,
Luís Almeida Jr., João Bernardo, Miguel Bastos, José Almeida,
António Teixeira, Damião Martins, João
Neves e a Nicolina Marta Nuno.
As Festas Nicolinas são, então,
cada vez mais as festas de todos os estudantes de Guimarães e que
escolhendo a cidade para estudar encontram aqui urna tradição única
e de grande valia social e cultural.Hoje as Nicolinas são
uma forte realidade cultural, mobilizadora da Alma Vimaranense.