08 dEurope/Paris Setembro 2010

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Origens e Evolução

De Norte a sul do país, nesta terra portuguesa, não há lugarejo que não tenha o seu costume, a sua lenda, a sua tradição.
Desde Lanhoso a Esposende ou até terras de Santa Maria não há classe ou grupo social que não tenha os seus folguedos e culto, desde a mais distinta à mais humilde e analfabeta.

O povo português em especial, os latinos e célticos genericamente, tem a sua ancestralidade numa abundância de festas e folguedos a Deuses naturais, verdadeiros ou falsos, antropomórficos ou simplesmente humanos, para mitigar as agruras da vida, ou para dar largas ao seu espírito ou ainda para expandir a sua alegria. São Festas aos patronos: são romarias que, na sua origem, foram produto do religiosismo sincero da alma simples de um povo e que, com o decorrer do tempo, foram tomando um carácter profano, mais ou menos lúcido.

Conforme o seu mister, até às superiores elites da inteligência, todos têm na sua comunidade, a sua festa tradicional.
A Academia Vimaranense não podia ser excepção, afinal existe há centenas de anos.

Vejamos em síntese a possível evolução conhecida por que passaram os folguedos das Nicolinas ao longo das épocas.Em 1190, ao tempo em que Portugal ensaiava os primeiros passos de nação, Paio Galvão foi renomeado mestre da Escola da Colegiada pelo primeiro D. Prior conhecido, D. Pedro Amarelo, e os estudantes de Humanidades desta vetusta Escola, erecta na igreja de Santa Maria da Oliveira, com a sua devoção à Virgem desde o Séc. IV, foram a origem e remota das Festas Nicolinas.

Esta tradição que hoje faz parte do rico património vimaranense, soltava os rapazes pelo Solstício de Inverno em folguedos e corridas pelos campos, comemorando S. Nicolau cujo culto tinha sido difundido na Europa.Do séc. III ao séc. XV a tradição foi-se manifestando em comemorações mais ou menos similares às do resto do Mundo.

Os jovens estudantes recolhiam lenha, castanhas, maçãs. Faziam a sua posse e organizavam um grande MAGUSTO no rossio do Toural, em pleno terreiro, para onde era convidada toda a população. Eram poucos os estudantes e, portanto, o convívio era próximo, envolvente. A anunciar a Festa Nicolina como ainda hoje se faz em comunidades rurais, era alteado um arco engalanado. Os jovens mais modestos traziam a árvore - O Pinheiro - e espetavam-no na praceta, deixando-lhe a ramagem no cocuruto. O mastro anunciava assim o começo da Festa.

Depois do Magusto eram distribuídas as maçãs pelos populares, homens e mulheres, como dote, privilégio, ou prova de amizade. Sobretudo às mulheres jovens que alimentavam as paixões nas noites de serenata...

Mas a tradição escolástica vimaranense não se confina à Colegiada. Tivemos cá a Universidade na Costa: “pois sendo El-Rei D. João III ainda príncipe, houve um filho natural com uma moça da Câmara da Rainha D. Leonor ... a quem pôs o nome de D. Duarte, e o mandou criar com todo o segredo no Mosteiro da Costa, junto a Guimarães”. E logo o irmão do mesmo Rei, D. Luís “... entregara ao Colégio da Costa seu filho D. António, que proviera de seus amores com uma formosa judia, a Pelicana” . Citando o Sábio polígrafo José Leite de Vasconcelos diríamos que “se outras indicações históricos não houvesse, bastara este singelo para nos fazer restituir à cidade de Guimarães a glória da posse de uma Universidade no século XVI “.

Depois chegamos à época dos descobrimentos, ao Séc. XV e a cidade sofre uma transformação bastante acentuada. As ruas Novas começam a aparecer e os interesses económicos medievais também modificaram os seus hábitos e lugares.A Festa foi acompanhando o crescimento do burgo e criando números que se foram perpetuando na tradição.A orientação das ruas, até aí Norte - Sul, ou seja do castelo à igreja, passam a ser Leste/Oeste.
O principal interesse era na época, chegar rapidamente ao mar.

Muitos jovens se perderam em aventuras e se quedaram pouco pela cidade Daqui em diante toma-se mais importante pôr os produtos da terra rapidamente junto ao mar para aprestar barcos e caravelas ali, para as bandas de Vila do Conde. Muitos dos nossos moços foram atraídos pela nova aventura e também por ela foram, influenciados. Os folguedos também vão sofrer algumas transformações. A Academia cria a sua Confraria cujo patrono é S. Nicolau e com o compromisso de 1513 introduz os hábitos novos das Novenas e Matinas à padroeira Nossa Senhora da Conceição, então ali para as bandas da ribeira da Vila, no terreiro da feira.

No Inventário Geral da Colegiada relativo a 1564, pode ler-se: A Capela de S. Nicolau fizeram-na os estudantes desta vila e outros devotos de dinheiro que ganharam em comédias e danças que por devoção do Santo e aumento da capela aceitavam o dinheiro que lhe davam. Tal demonstra um culto anterior a 1654 em que a Capela já estava concluída e é em 6 de Dezembro de 1691 que se transforma por compromisso, a Confraria de S. Nicolau em irmandade.

No tempo dos Filipes a juventude luta em defesa da liberdade para Portugal. Em Guimarães há várias manifestações contra o poder instituído, sobretudo cavalgadas de embuçados durante a noite com gritas à liberdade e que são proibidas.Chegamos ao Séc. XVII e as ameaças à jovem independência, bem como as invasões francesas, vêm contribuir para aumentar o imaginário patriótico e a hipérbole fantasista postos nos textos, comédias, danças e representações promovidas pelos estudantes. Nos pátios da cidade, nos salões das casas senhoriais ou tão somente nas ruas para o povo anónimo, Guimarães rejubila de alegria pela Festa da sua juventude. Nasce o Pregão à boa maneira das academias francesas ou do simples decreto real que era anunciado e que pelos Bandos Escolares eram apresentados e declamados, acompanhados de cavalgadas e mascaradas que incomodavam o poder instituído.

O pregão era o gáudio da populaça. provocando truculências e desafios às autoridades.O séc. XVIII encorpou a tradição dos Festejos, consolidando a Urbanidade.No século XIX a Escola Industrial e Comercial de Guimarães, o Seminário da Oliveira e o Liceu foram o alfobre animador das Nicolinas. Mas aqui assistimos a uma diferenciação social, latente nos dois estabelecimentos de ensino.

Os aprendizes moços dos ofícios, artes e mestres e os jovens estudantes originários de uma classe mais favorecida economicamente e que estudavam no Liceu. Nesta época nasceu o banho forçado no antigo chafariz do Toural e que hoje se encontra no Carmo. Peça única do nosso património construído.
Este período das Nicolinas é o mais profano da sua existência, pois do seu carácter religioso nada reza a história, os Festejos são os tempos do liberalismo. Deviam antes chamar-se festas às Senhoras de Guimarães. Elas são as verdadeiras musas no decurso da história e da sua existência fundamental, como se testemunham nas leituras dos pregões da época. A natureza cumpre a sua função. Existe.

Ao longo da data de 1880 só se encontram nos bandos das Nicolinas, apoteoses ao amor, hinos e madrigais às senhoras da cidade e galanteios às formosas e azougadas meninas do burgo. É a época do Romantismo literário que foi cultivado pelos moços nicolinos. O tema forçado é o amor. Somos, assim, levados a concluir que Nicolau era um símbolo para encobrir intenções reservadas e paixões naturais.Em 1853 e 1861 por morte respectivamente de D. Maria II e do Senhor D. Pedro V não se realizaram as Nicolinas.

A Academia estava de luto.De 1865 a 84 celebram-se as festas com muito brilho por empenhamento de uma plêiade de jovens das melhores famílias do burgo.De 1884 a 95 não há festas Nicolinas. Desapareceram e S. Nicolau foi esquecido. Qual a razão deste desinteresse? Os estudos de Latim e Lógica do Instituto de N. S. da Oliveira até 1884 serviam de preparatórios, tanto para as carreiras civis como para a vida eclesiástica. Por isso Guimarães era um centro académico importante e, por isso, Nicolau podia ser festejado.

Mas a organização dos Liceus com estabelecimentos forçados para preparatórios das profissões liberais rouba a Guimarães a maior parte do seu contingente académico.Somente em 1896 o pedido de criação do Liceu Nacional é atendido fazendo voltar a Guimarães a mocidade estudiosa de Entre Douro e Minho, das terras de Basto ou do Sousa e de Trás-os-Montes.Neste período, um realce particular para os obreiros das Nicolinas, fazedores de novas e actuais festas, bem zabumbadas e afinadas preceito por Jerónimo Sampaio e do Anjo da pena, fazedor de soberbos poemas e pregões magistrais, o Dr. Bráulio Caldas.Deste período existem, em cada ano produzidos, brilhantes Pregões e Bandos escolásticos dignos de mestres e que são património da nossa Academia e onde estão retractadas magistralmente as personagens e figuras de relevo da cidade com sátiras e criticas magistrais.Ao voltar do século despede-se uma geração e acontecem as novas mudanças na cidade.

A República chega e com ela o progresso começa a chegar a esta cidade pela vontade do Presidente Mariano Felgueiras e seus pares. O comboio para Fafe, a polícia, as zonas novas da cidade, o internato Municipal sendo seu primeiro director o Dr. Eduardo d'Almeida. Com esta geração o destaque para Arnaldo Pereira, Nicolino de referência, mas também para João de Meira, Padre Gaspar Roriz, Delfim Guimarães, Luís Filipe Coelho, Jerónimo d'Almeida, Leão Martins e o Mestre José de Pina.A República e o 28 de Maio também trouxeram marcas e mutações aos Festejos e as Reformas do ensino emanentes reduzem ao ostracismo as Nicolinas.O Estado Novo não desejava movimentos estudantis onde a liberdade e a democracia faziam parte dos seus hábitos de vivência.

A Festa fica reduzida aos alunos do Liceu Nacional de Guimarães e a alguns outros, poucos, da Escola Industrial que se atreviam a participar.Na década de 60 por força do restauro da Igreja da Oliveira é desmontada pedra a pedra a capela de S. Nicolau que fica amontoada até aos nossos dias na Colegiada. Um erro imperdoável dos Monumentos Nacionais. Também a Irmandade quase desaparece, envelhecida e temerosa. Em 1961 nasce a AAELG e o realce será para o estimado e saudoso António Faria Martins acompanhado de António Dias P. Castro, Aristião Campos, Hélder Rocha, Luís Cardoso, João Augusto Passos, Amadeu Guimarães, o Sargento Júlio Mendes, António Monteiro, Alexandre Rodrigues, fazedores já anteriormente em 1954, de umas saudosas e atrevidas Danças.Com o 25 de Abril ganha polémicas e novos arremedos de vontade de renascer.

Um grupo de nicolinos desde 1969 alimenta o Espírito Nicolino das novas gerações que participam na Festa, sempre que é preciso mantê-la viva. Neste grupo que reúne há 30 anos na última Sexta-feira de cada mês encontram-se homens de grande envergadura moral e pública e cuja dádiva às Nicolinas merecem referência: Alexandre Rodrigues, Meireles Graça, Martins Faria, José Maria Magalhães, Agostinho Gonçalves, Joaquim Mota Prego, José Gilberto, José Maria Jordão, Pinto d'Almeida, e os já finados: o velho Passos armador, o alegre Rui Faria, e o nosso saudoso “Ku-mandante” de Fafe o Orlando Alves, entre outros de boa memória. Era o professor Óscar Machado que como Maestro orientava a “música” toda para as Festas e o Sino a sanfona do órgão carregado até ao último piso da Torre dos Almadas.

Deste grupo de aproximadamente 30 Nicolinos saíram, ao longo das últimas três décadas, as Festas Nicolinas actuais, melhor ou pior expressas nas comissões anuais de jovens que as tomaram realidade.Nas décadas de 70/80 uma nova geração começa a apropriar-se da Festa como herança: Cândido Costa, Alcino Machado, Américo Ferreira, Lino Moreira, Augusto Costa, Capela Miguel, Abel Monteiro, João Mesquita, José Ribeiro, Vicente Salgado, o Ricardo Gonçalves, o Rolando Sampaio, Francisco Tadeu, o António Romano, o Carlos Duarte, o Carlos Ribeiro, que se dedicam ao rejuvenescimento das Danças de S. Nicolau e da Academia.

Os Trovadores do Cano cediam o espaço de ensaio e os tocadores para o Hino. Rejuvenesceram-se grupos e tertúlias fazedores das Festa Nicotina; renasceram por fim, trazendo para o seu lugar primitivo, o centro histórico da cidade - a Razão de Ser e a Alma da Festa: As Maçãzinhas.Já na década de 90 outra geração aparece empenhados na valorização das Nicolinas: Luís Correia, Pedro Lima Fernandes, Hélder Oliveira, Luís Almeida Jr., João Bernardo, Miguel Bastos, José Almeida, António Teixeira, Damião Martins, João Neves e a Nicolina Marta Nuno.

As Festas Nicolinas são, então, cada vez mais as festas de todos os estudantes de Guimarães e que escolhendo a cidade para estudar encontram aqui urna tradição única e de grande valia social e cultural.Hoje as Nicolinas são uma forte realidade cultural, mobilizadora da Alma Vimaranense.

 




 

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