08 dEurope/Paris Setembro 2010

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No nosso tempo... Meu caro Adelino Jorge

No nosso tempo...
Meu caro Adelino Jorge

HÁ dias, andámos os dois a passear aí no largo do Toural, onde foi, no nosso tempo, o Jardim de Guimarães. Talvez ainda as pedras da calçada nos transmitam as recordações das passadas que ali demos durante os concertos da saudosa Banda do 20, do mestre Ramos e de outros que já lá vão.
E foi precisamente num ambiente de saudade que recordámos as festas do S. Nicolau, que tu e outros entu¬siastas, e até eu, que nunca nelas figurei, querem agora comemorar no seu cinquentenário.
Foi também sobre o tema de que no nosso tempo tudo se passava com mais entusiasmo, com mais calor, com mais alegria e até com maior compreensão dos outros, dos que nos assistiram e aplaudiram.
Assim foi realmente para nós, e para os que desse tempo têm tantas saudades como as que nos enchem o coração, e bem me lembro da desdenhosa atenção com que ouvíamos o relato das aventuras dos que, no nosso tempo, já eram de outro tempo.
Como poderemos nós arrancar deste corpo, já inclinado para a velhice, a carga dos anos que o alquebrou, o enrugou e ressequiu, e o transformou numa ruína?
Como dar cor a estes cabelos brancos (para isso ainda há remédio, mas, infelizmente, só... para isso), brilho a estes olhos envidraçados e mortiços, sangue a estes lábios descorados, em que um madrigal é quase um insulto, lisura a estas faces que espalham a tristeza no meio da gente nova?
Como endireitar o tronco já vergado e torcido e desajeitado e dar músculo e fibra a estes braços cansados de labutar e combater nesta dura batalha, e agilidade e resistência às pernas que nos arrastam cansadamente neste trágico caminhar pela Vida?
Ai, meu caro Adelino, tudo isso passou, e passou irremediavelmente, e no amargo significado do que não pode voltar e do que não tem remédio, está toda a dor que nos aperta o coração!
Queremos forçar o Destino, ter a ilusão de que o passado voltou , uns momentos de saudável alegria emparceirar ao lado dos novos para solenizarmos o S.Nicolau sob o mando do incorrigível Sampaio e do nosso carinhoso Mestre Pina?
Seja assim, mas vê lá, não te enganes, que os sorrisos os olhos brilhantes as palmas, as palpitações de coração e as ânsias de tudo ver, não são para nós por muito duro que casquemos nos zabumbas, é tudo para os filhos e netos dos que agora lhes vão dar uns restos do seu velho entusiasmo.
E era afinal só isso o que nós dantes, no nosso tempo, procurávamos, e talvez haja na multidão quem melancolicamente, e com saudade, diga— eram estes os rapazes do nosso tempo — e talvez seja essa a esperança que nos guia.
Pois bem, lá me terás para a ceia, para o Pinheiro e para o Sarau, pronto a pôr as barbas brancas (para quê?) e a figurar onde a minha velhice possa ser útil à Comissão.
Por último recordo-te o que combinámos juntarmo-nos quatro, dos velhos, para alugarmos um bombo, não por mera economia, mas para nos revezarmos, porque, concordamos, no fim de cinco minutos estamos arrasados, e não poderemos, como outrora o Brito e o Álvaro Casimiro, meter-lhe os tampos dentro à segunda ou terceira mócada.
E para cumprirmos essa velha praxe, vê lá tu, somos precisos quatro - tu, o Fernando, o Abel e este teu ve¬lho amigo.


Jugueiros, 10-XI-1945. A. DE QUADROS FLORES.

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